Culpados que não tem culpa

Certa vez, em uma cidadezinha distante, um homem em sua busca infinita por compreensão, açoitado por seus pensamentos, culpas e mágoas, doente de corpo e de alma, um dia foi levado contrariado a um sábio por sua velha mãezinha que tanto lhe amava. Os dois mal se falavam, não se entre olhavam e um sentimento de angustia tomava conta de seus corações.
Ao chegarem à casinha humilde, o homem olhou desconfiado, observou o silêncio quebrado somente quando ouvia o cantar dos pássaros, um sentimento de solidão e medo parecia lhe tomar conta.

Então, extremamente racional como sempre, indagou a si mesmo: “como um homem barbado parecia agir como uma criança indefesa?” Ergueu a cabeça, serrou os dentes e estufou o peito como se tivesse domínio da situação.
Uma senhora, com ar tranqüilo, pediu carinhosamente que entrassem, solicitou a sua mãe que se sentasse e com os olhos brilhantes que lhe fitavam estendeu o braço e apontou-lhe uma pequena porta azul sem maçaneta.
 O homem caminhou em direção a porta, viu as trincas ao lado do batente, ouviu o silêncio e se sentiu invadido, pois não queria vir. Ao entrar, viu o espaço claro e com poucos móveis, tudo simples e aconchegante. Viu um senhor de cabelos grisalhos sentado em uma cadeira com outra vazia em sua frente, ao seu lado uma mesinha com uma jarra e um copo de plástico.
Com seu ar arrogante e auto-suficiente, de quem era fluente em vários idiomas, viajado pelo mundo, conhecedor reconhecido de matemática, pesquisas científicas e informática, com seu terno caro e irritado, quebrou o silêncio e desafiou com voz irônica:

  1. O senhor é o sábio que pode me ajudar?

O velho ergueu a cabeça serenamente e com um olhar de carinho e reconhecimento, olhou em seus olhos com humildade e disse com voz afável:

  1. Meu amigo gostaria de se sentar?

O homem se sentando disparou:

  1. Saiba que estou aqui somente pela insistência daquela tola de minha mãe.
  2. Saiba meu amigo, aquela senhora sempre fez o melhor que pôde, com os recursos que dispunha, com o aprendizado que recebeu. Deu o melhor de si, com a melhor das intenções a quem amava. Respondeu o velho.

Incomodado com a resposta tão confiante que ouviu daquele humilde velhinho que via a sua frente, disse:

  1. Não me fale em amor, até hoje não esqueço tudo que me fizeram passar desde minha infância, e o que o senhor sabe disso?

Com sentimento de paciência, fitando seus olhos em voz mansa o sábio respondeu:                    
            -     Querido amigo, tudo aquilo que pode ter te magoado, incomodado ou traumatizado na infância não foi feito com esse intuito. Todos aqueles em que você acredita serem responsáveis, com certeza somente estavam educando ou corrigindo um comportamento que para eles consideravam inadequado. O que te incomodou provavelmente não incomodaria a eles próprios, que tem outra percepção, outra personalidade, outro modo de absorver e armazenar fatos. Se forem culpados para você, na verdade são culpados que não tem culpa.

O homem com a testa franzida, olhando firmemente para o velho sábio, retrucou quase que berrando:

  1. Sinto-me jogado em uma masmorra escura e não consigo sair dela. Eles me jogaram nela.

Por alguns instantes o silêncio tomou conta do local, a brisa que entrava pela janela era fria e o homem mantinha o rosto virado para a porta evitando os olhos do velho sábio que se levantou calmamente, pegou o copo plástico e a jarra e disse:

  1. Colocar-se no lugar da outra pessoa é uma chave que abre muitas portas. O senhor aceita um copo de água? E estendeu-lhe a mão com o copo.
  2. Neste copo plástico? Retrucou o homem com tom arrogante.
  3. Tome neste mesmo. O sábio respondeu firmemente.

Assim, entregou-lhe o copo, pegou a jarra d’água e começou a encher o copo. E foi enchendo até derramar e molhar o visitante que levantou irritado e esbravejou:

  1. Eu sabia. Trouxeram-me a um sábio e olha só o que encontro: um velho caduco, esclerosado, que não sabe sequer servir um copo de água.

Então, com serenidade o velho sábio lhe explicou:

  1. Ouça-me... Você está realmente igual a este copo de água: tão cheio, transbordando de coisas que sabe ou pensa que sabe. Transbordando de mágoas, de tristeza e de ódio, que não dá a chance a si próprio de aprender coisas novas, ou de perdoar, de amar e crescer. Não percebe nem que possam existir pessoas que lhe possam ensinar algo. Veja o que vê, ouça o que ouve, sinta o que sente.

Envergonhado, sem jeito, olhando para baixo o homem tentou se explicar:

  1. Mas, senhor... eu...mas.... Nada disse.
  2. Escute-me meu querido amigo, se esvazie. Dê uma oportunidade a si próprio de esvaziar seu copo de água interior e, com certeza, novos aprendizados e sentimentos reencherão seu copo. Novos pensamentos e atitudes farão parte de sua vida e então, você será curará, você se libertará. Verá o amor, ouvirá doces palavras, sentirá a paz.

Com os olhos ao alto, pensativo, o homem exclamou em voz baixa e calma:

  1. Tudo bem! Desculpe-me.
  2. Deixe a culpa de lado, isso adoece. Aproveitar as experiências passadas, tirando das mesmas um aprendizado, sejam elas boas ou inadequadas é a atitude certa. Com isso, podemos reformular nossas ações, atingindo o que buscamos.

Mais aberto e calmo, em sintonia com o velho sábio, olhando-o nos olhos, o homem perguntou:

  1. E tudo que me fizeram no passado?
  2. Sua mãezinha parece já ter percebido que nosso poder está no presente, naquilo que fizermos agora, isso sim vai e deve influenciar os acontecimentos futuros. Por isso ela lhe trouxe aqui, devemos soltar as amarras do passado.
  3. Por que não compreendem o que sinto?
  4. Já lhe disse, devemos saber que cada um é cada um, e tem seu próprio modo de ser, de interpretar os fatos, e de armazenar suas experiências de vida. Não compreendem porque deram o melhor de si e também se sentem incompreendidos e sem reconhecimento.
  5. Eles vêem as coisas conforme lhes convém. Disse o homem.
  6. Eles vêem as coisas conforme suas crenças, valores, objetivos e história de vida. Você acredita mesmo que a educação que sua mãe recebeu ou a vida que teve foi melhor que a sua? Lembre-se, compreender o ponto de vista do outro é necessário, mesmo que seja totalmente diferente do seu. Isso não significa que você deve concordar ou mudar de opinião, e sim, simplesmente compreender que outra pessoa pensa de outro modo e sempre age com intenção positiva.
  7. É, porem, nós não conseguimos nos relacionar bem. Disse o homem com a voz embargada e cheia de tristeza.

O velho sábio sentado em sua cadeira, demonstrando amor em seu olhar cintilante, deu-lhe um sereno sorriso e disse:

  1. É Muito importante assumirmos a responsabilidade sobre o que não deu certo ou o que nos incomodou. Se alguém com quem convivo está sempre agindo de um modo desagradável para mim, devo observar o que estou fazendo ou deixando de fazer, que permite com que o outro continue com este mesmo comportamento. Afinal somos responsáveis pelo que cativamos, plantamos, cultivamos e colhemos. Agindo assim, crescemos e evoluímos.
  2. Se eles fossem mais abertos, me dessem uma chance?
  3. Você deve saber o que é bom para você pode não ser bom para o outro e, mesmo assim, podemos manter bons relacionamentos. Você está colocando todas as suas expectativas no outro, comece por você, dê o primeiro passo.
  4. E se eles não corresponderem?
  5. Meu amigo! Assuma a direção de sua vida, relacione-se bem consigo próprio, que é onde está seu circulo de influência e conseguirá relacionar melhor com aqueles que lhe cercam, sejam eles fáceis ou difíceis de lidar.
  6. É realmente difícil. Disse o homem pensativo.

O velho sábio, olhando em seus olhos, colocou a mão em seus ombros, e com sentimento de reconhecimento disse-lhe:
-     Lembre-se você tem conhecimento, capacidade intelectual e determinação, aja com flexibilidade mental e com equilíbrio emocional. Estabeleça seus objetivos e vá em direção a ele agindo com força de vontade e consciência, então acredite você vai conseguir.
O homem ergueu os olhos cheios de carinho e reconhecimento, fitou o sábio longamente sem uma palavra, deu-lhe um sorriso e estendeu-lhe a mão e aí disse aliviado:

  1. Muito obrigado! Aprendi muito com o senhor, a partir de agora terei a atitude de aprender sempre. Agora sei que as pessoas são diferentes de meus números e computadores, em minha caixa de ferramentas só havia martelo e eu tratava tudo como prego. As pessoas são únicas e devem ser respeitadas e compreendidas, isso faz parte da inteligência divina. Respeitarei a todos, pois percebi que o que recebo dos outros é resultado daquilo que lhes passo.                                              O homem virou-se, atravessou a não mais, pequena porta azul, olhou sua mãezinha ansiosa, segurou-lhe a mão e a ajudou a se levantar. Deu-lhe um forte e carinhoso abraço, que a deixou emocionada, lágrimas desceram por seu rosto sofrido. Olharam-se nos olhos e com o silêncio do recomeço partiram de mãos dadas.

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